20.12.06

O Chafariz



"Teus olhos cansados, amada,
não abras agora pra me ver
na pose despreocupada
em que te pegou o prazer.
A água a jorrar no jardim,
que murmura noite e dia,
mantém mansamente em mim
o gozo que o amor irradia.
Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores.
Assim, tua alma incendiada
no clarão ardente do cio
voa no céu sem temer nada,
bem-aventurado vazio!
Depois, morrendo, se espraia,
onda de morna mansidão,
descendo a invisível praia
que vai dar no meu coração.
Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores.
Quando a noite te faz mais terna,
como é doce, sobre os teus seios,
escutar a saudade eterna
que soluça nos lagos cheios!
Lua, noite, água sonora,
árvores de leve rumor,
vossa melancolia agora
é o espelho do meu amor.
Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores."

Charles Baudelaire

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Bem bonito...

02:10  

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